quinta-feira, 8 de junho de 2017

Essa é muito antiga...

meadowarts.org

Uma cicatriz por mais antiga e impercetível que seja é sempre um ponto de tensão no corpo. Devemos sempre lembrar que a cicatriz superficial tem camadas mais ou menos profundas, dependendo da estrutura que foi operada, e que estas são também pontos de tensão. 

O nosso corpo, por ser muito inteligente, tende a proteger a zona que foi operada, tende a fechar-se sobre esse ponto. Por exemplo, uma cicatriz na zona do esterno por uma cirurgia cardíaca, a tendência será o peito fechar-se em si mesmo, os ombros a rodarem para a frente, a dorsal a curvar. Outro exemplo, a cicatriz de uma cesariana, pequenina, pequenina, impercetível, uma proteção provável poderá ser a bacia começar a fechar-se, os fémures a rodarem para dentro, a lombar exacerbando ou retificando a sua curvatura normal.

Estes são exemplos óbvios de cirurgias óbvias. E as cirurgias menos óbvias, cuja cicatriz parece ter um resultado inócuo? Como a de uma hérnia inguinal, ou da apendicite da infância ou ainda a invisível cicatriz de um cateterismo?

As camadas de tecidos devem deslizar umas sobre as outras, para que o movimento não fique comprometido, para que a tendência protetora sobre a cicatriz não passe disso mesmo, e não se transforme num emaranhado de tensões, aderências e fixações nesse ponto ou nas estruturas adjacentes.

Quantos pacientes chegam com uma dor na anca, no joelho, no fundo das costas, ou no ombro, na cervical, e quantos, não coincidentemente, têm cicatrizes destas, impercetíveis e antigas? Quantas vezes numa geografia anatómica aparentemente distante da região onde têm a dor que os trouxe até à Fisioterapia?

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Anúncio de Verão

tudosobreplantas.com

O início da Primavera traduz a verdadeira força da natureza. As plantas emergem da terra, contrariando a força da gravidade, e crescem impulsivamente em direção ao céu, aguentando o frio das noites e das manhãs e aproveitando sabiamente o calor do dia.

Mas a Primavera avançada, mais branda e suave, tem outro encanto. Os cheiros que começam a surgir, sobretudo ao final da tarde e à noite, as flores que brotam e tornam tudo mais colorido. Por entre os capins abandonados de beira de estrada brilham florzinhas selvagens amarelas, brancas ou roxas, os loureiros sobem na vida e passam de arbusto despercebido a senhores floridos e tudo isto torna mais simpático o ficar parado no trânsito.

De todas as maravilhas naturais da fase tardia da Primavera, há uma que me tira o folego! O jacarandá.

Fico ansiosa para que floresçam. Aquele roxo-lilás muito vibrante que enche avenidas e ruas inteiras ou aqui e ali pela cidade, entre outras árvores, muito vivo, alegre e vaidoso. Alguns são tão bojudos que nem lhes distinguimos os ramos por entre tantas flores. São maravilhosos! Perco-me a olhá-los e todos os anos me espanto como se fosse a primeira vez que vejo tal coisa.

As flores do jacarandá costumam chegar em Maio e dão sinal de que vem aí a estação quente. Como é bom um anúncio de Verão!

Até o nome é engraçado, jacarandá. Parece nome de brincadeira, ou de fruta tropical ou mesmo de bicho divertido.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

As Cadeias Fisiológicas ou o Método Busquet

method-busquet.com

O método Busquet foi criado pelo fisioterapeuta e osteopata francês Leopold Busquet. Segundo o próprio Leopold as Cadeias representam uma leitura anatómica e fisiológica do corpo humano e por isso, não são nem uma teoria, nem uma filosofia. São circuitos anatómicos através dos quais o corpo humano se organiza.

Levou anos a estudar, a tentar compreender o dinamismo do corpo humano, foi-se juntando a outros terapeutas dispostos a estudar e criar com ele o método. Tornou-o de simples compreensão, ressuscitou a avaliação do paciente da cabeça aos pés, criou um método global, que vê o todo relacionando as partes entre si.

A sua grande mais valia foi ter conseguido relacionar o sistema músculo-esquelético e o sistema visceral, relação chamada de contentor-conteúdo. O sistema músculo-esquelético, o contentor, adapta-se às necessidades do sistema visceral, o conteúdo.

Ter estudado as cadeias foi quase como tirar um novo curso de Fisioterapia. Quer isto dizer que o curso que tirei, no Alcoitão, foi muito bom, muito completo e exigente, e não o contrário. Mas quando acabamos um curso não temos grandes dúvidas, apesar de não sabermos quase nada. As dúvidas surgem quando passamos à prática, quando começamos a questionar o que vamos observando e sentindo, quando surge o pensamento. Por isso, no meu caso, fez sentido fazer as Cadeias quando as dúvidas não podiam mais calar.

Ao longo do curso fui tendo a sensação de que muitas eram respondidas. Algumas eram intuitivas, outras partiam da falta de sentido que encontrava entre o que os pacientes me diziam sentir e o que eu, com o conhecimento que tinha até então, lhes podia responder. Eu sabia que faltava qualquer coisa ao meu raciocínio clínico e que essa falta não seria colmatada no meu estudo solitário.

Quer dizer que já sei tudo e que resolvo qualquer situação a qualquer pessoa, qual salvadora da pátria? Não. Durante uns tempos parece que temos resposta para tudo e depois, quando o conhecimento começa a assentar, surgem logo novas questões. Porque é a eterna insatisfação saudável que nos faz procurar saber sempre um pouco mais.


quinta-feira, 18 de maio de 2017

Amanpour

Noutro dia, em conversa a propósito das eleições francesas, o meu interlocutor e amigo perguntou-me onde tinha ido buscar as notícias de que lhe falava. E respondi-lhe, com a naturalidade de quem já se considera íntima da senhora, na Amanpour. A Christiane Amanpour, para quem não conhece, é uma jornalista da CNN, que tem um programa diário sobre assuntos internacionais.

Sou uma profunda admiradora do seu trabalho, no entanto, admito que comecei a vê-la por ser parecida com a minha Mãe. O ar exótico, os olhinhos pretos, brilhantes, vivaços. É incisiva, certeira e incansável até que se sinta satisfeita com o nível de informação recolhida do seu entrevistado.

Não teve um percurso facilitado dentro do ramo, em parte por ser filha de pai iraniano, por não ter nem sotaque norte-americano, nem suficientemente britânico. Teve, finalmente, o seu mérito reconhecido quando fez uma grande reportagem sobre o Irão, onde viveu na infância.  

O programa é composto por três entrevistas e uma curtíssima rúbrica final. O mais fascinante no seu trabalho é a profundidade com que trata os assuntos, que muito se deve à escolha dos entrevistados, parece escolher sempre a pessoa certa para dissecar determinado tema, que podem ser presidentes, primeiros-ministros, embaixadores, professores universitários, enfim, gente entendida. O facto de o canal ter excelentes correspondentes pelo mundo todo, e que muitas vezes reportam dos cenários mais inóspitos da atualidade, também enriquece o programa, criando uma ponte mais realista entre o estúdio de gravação e o terreno. Fica-se sempre a conhecer mais um pouco depois de vermos esta jornalista rigorosa e destemida.

A rúbrica final do programa chama-se Imagine a World, trata de algo positivo e inspirador, muitas vezes inusitado, que esteja a acontecer no mundo. Esta forma de fechar o programa, que na maioria das vezes aborda temas tensos, mostra a inteligência e a sensibilidade de quem põe a sua alma na matéria que produz.

Podemos vê-la de segunda a sexta ou ouvi-la em podcast, se vos interessar, espreitem aqui.